Três palavras

 Tarde da noite. Talvez não tão tarde, mas suficientemente tarde para quem está cansado e precisa de um certo repouso sobre suas constantes filosofias da vida, aquelas que invadem a mente um pouco antes de dormir, quando as luzes estão apagadas, o vento assobiando pela janela e a noite escura transformando palavras em um eterno silêncio até a madrugada.
 Ela que estava lá. Estava deitada em sua cama, eu diria que estava um bocado entediada com as coisas que aconteciam lá fora e que estava sem sono. Não sei se estava pensando em algo, eu não poderia dizer por ela, mas ela poderia dizer por mim sim que estava pensando em suas pequenas paixões, sejam elas quais forem. Seja alguém, seja um poema, seja uma canção, um livro ou qualquer coisa do tipo. Sussurrava talvez alguns pensamentos secretos que não gostaria que ninguém os ouvisse e de vez em quando, estampava um pequeno sorriso no rosto. Acho que até acompanhava o assobio da janela, mas continuava com um sorriso no rosto e de fato, eu nunca soube o porque.
 Diga-se de passagem que talvez a chamem de "minha", mas ela não é de ninguém. É um tipo de folha que cai de uma árvore num outono qualquer, diria que uma pétala de sakura porque possuía uma beleza significante e de vez em quando, fazia com que eu me lembrasse de pequenos devaneios aonde as ruas escuras e empoeiradas, eram trocadas por uma pequena passarela aonde uma esfera branca desfilava com cautela, iluminando os caminhos dos cegos das madrugadas. Eu sou um desses cegos e estava lá quando ela passou. Cegos que não possuíam grana, cegos que não faziam nada. Cegos que vadiavam por aí sem um rumo e sem qualquer esperança de qualquer coisa, mas ela continuava deitada alí e ria a toa. De nada que eu sei, mas ela ria.
 Eu, de vez em quando, gostava de olhar e ouvir a sua risada pela janela, fingia assobiar com o vento só pra ela assobiar comigo, mas só de vez em nunca, eu realmente desejava que ela assobiasse ao meu lado. No meu ouvido, por uma noite inteira.

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Yas-nay.

 Eu fiz pra ela. Escrevi pra ela. Escrevi uma frase feita ou duas, talvez três bobagens relacionadas a coisas banais, mas eu fiz pra ela. Fiz sim, pra ela que gosta de ler os meus bilhetes de boteco, poesias chulas e mal acabadas, palavras clichês se entrelaçando como se forma uma pequena colcha de retalhos que acaba por fazer parte de todas as suas noites de sono. Cobrindo-lhe a alma, o pensamento e os olhos, numa paz quase inexplicável.
 Eu diria, Yasnay, Yas-nay, ou como você preferir, que existem três tipos de coisas que já me contaram de você ou que eu já li sobre você. Primeiro que existem livros e você faz parte de um conto qualquer, segundo que você existiu na minha vida e nem sequer pensou em partir nos dias de minha derrota e terceiro que você ainda estende as mãos pra poder me segurar quando meus olhos estão vendados pelo destino. É engraçado como uma linha não pode tecer sem ter uma agulha e de vez em quando, eu começo a acreditar que você é a minha. Eu tenho várias. Você é uma delas. Você tece a vida aos poucos comigo e no final feliz que a gente espera, há de encontrarmos um belo vestido com todas as cores belas que podemos enxergar nesse mundo tão estranho.
 Já tentou repetir seu nome várias vezes? Já chamou por alguém que nunca lhe respondeu e já acreditou no que ninguém havia antes visto? É, eu acho que é assim que funciona com você e com seus cabelos encaracolados à Rita Baiana, como você realmente se parece e um pedido a mais pra que você arranque de meu rosto um pequeno sorriso torto quando tudo parece estar indo para o lado errado. Que lado errado? Se é que existe um lado errado, mas lá está você e de olhos abertos pra nunca mais fecha-los.
 Yas-nay. É um textinho pra você, Nay-Yas, ou como você preferir.

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Máscaras e espelhos

 Um pequeno espelho com uma moldura branca em minhas mãos. Meus olhos observavam os outros olhos que alí estavam e todos os pequenos movimentos que eu fazia com a boca, eram imitados por aquele objeto tão sem graça. De vez em quando, nos botecos da vida, eu costumava observar um objeto parecido com esse e encontrar um rosto embriagado com um olhar tristonho que parecia mergulhar em alguns estilhaços que a alma possuía ainda, mas agora, vejo um par de olhos vazios. Sem nada. Elas não tem absolutamente nada e suas cores são tão irrelevantes que também pareciam desaparecer. A cena não tinha cores, o reflexo era imóvel e o ambiente não tinha vida... Nenhum sinal de vida...
 As paredes, brancas, as sombras, negras, caminhavam lentamente e pintavam-se como tintas que escorriam por uma pequena tela de um artista frustrado. Pés estavam descalços e o chão gelado trazia uma certa sensação de calafrio, se é que poderia ser chamado assim. Embora imóvel e com uma pequena máscara de papel nas mãos, o reflexo daquele corpo continuava a exalar um certo calor. Um certo medo e a intenção de estar perdido em meio a tantos estilhaços pelo chão. Engolia em seco cada palavra que poderia dizer, mas não existia uma força sequer que lhe ajudasse a entreabrir os lábios e exalar um suspiro gélido que não era capaz de apagar as visões que pareciam cegar aqueles olhos.
 Era uma madrugada sem cor. Madrugadas não tinham cor nesse mundo. Madrugadas eram geladas, tristes e repletas de lâminas que lhe partiam a alma. Se sentia como um Pierrô mas nunca havia conhecido a sua Colombina e passava a acreditar que isso era apenas parte de um desejo inexistente do tão sonhado sentimento que todos os homens almejam e ele, no entanto, não o almejava.
 Moveu seu braço lentamente até seu rosto e com um pequeno gesto, colocou a máscara. Na máscara, havia um sorriso, uns olhos cheios de cores e um mundo que parecia ser azul. Um mundo coberto por árvores e maçãs avermelhadas, doces como nunca e que em seu real mundo, nunca existiram. Andou pela grama molhada e outros seres máscarados passaram a aparecer diante de seus olhos. O sorriso nunca saiu de seu rosto, mas toda vez que a máscara era retirada, seus olhos eram obrigados a encontrar aqueles olhos imóveis que de vez em quando, nem os reconheciam mais.

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Vendas de jornais

 A madrugada estava exremamente seca, as rosas avermelhadas se desfizeram com a doce brisa que assobiava pela janela do meu quarto e um par de olhos cor-de-safira me observavam da escada. Eu engolia em seco enquanto sentia aqueles olhos pousarem sobre a minha pele, que estava coberta pelo meu suor e pela enorme sensação de algo desconhecido que se aproximava.
 A garota, dos olhos cor-de-safira estava sentada em uma escadaria de madeira que levava ao segundo andar da casa. Ela estava em silêncio e parecia procurar por algo. Algumas fotografias eram refletidas pela iluminação exterior e eu, continuava deitada, sem ao menos me mover e sem como corresponder.
 - Não está com frio?
 - Tô é com muito calor... - Minha voz soou trêmula.
 - Eu tô com frio.
 - Como? Deve estar pelo menos uns quarenta graus lá fora.
 - Eu tô com frio porque não consigo dormir.
 Essa garota, cujo tinha os olhos mais belos que eu já havia visto, não usava uma máscara. Ela usava constantemente a tristeza posta em seus olhos e a refletia a todo instante. Nunca soube se ela realmente havia descoberto que era triste, mas a única coisa que sei sobre ela era que os seus sonhos haviam sido vendidos. Sim, sonhos vendidos, daqueles que se vendem nos jornais. O dela foi vendido por algo em torno de 150 reais, a preço de banana e tirou dela, toda a esperança.
 - Você sorri?
 - Eu não sei como se faz isso.
 - Quer aprender?
 - Não.
 - O que mais roubaram de você?
 E o silêncio tomou conta da sala novamente. O vento era o único som que podiamos ouvir e de vez em quando, as nossas respirações, muitas vezes, ofegantes por conta do calor tremendo que fazia aquela noite.
 - Não me roubaram nada, nem os jornais, nem as fotografias e muito menos as letras.
 - Letras?
 - Minhas palavras, bobas e sútis. Todas aquelas que eu colocava no papel e que fizeram com que eu me perdesse de vez. Entrelaçando linhas e pequenos vestígios de memórias que pareciam existir, mas tudo o que parece acontecer é uma mera ilusão que me cegou a vista e me arrancou uns pequenos sorrisos. Lembranças que nunca existiram.
 - Como isso funciona?
 - Eu não sei. Eu funciono assim. Engrenagens e mais engrenagens. Movida ao excesso de alcool e coisas chulas. Respirando sentimentos e expirando irônias. Não sou o que era, não escrevo mais. A minha caneta e o meu papel foram roubados de mim também. Os sonhos são o de menos.
 - E depois?
 - Depois eu durmo pra fingir que está tudo bem, mas hoje, só hoje... Só hoje eu não quero dormir.
 E eu jurei que por dois segundos ou menos, eu vi, outra vez, um pequeno sorriso escapar daqueles lábios rosados que acompanhavam os seus belos olhos azuis.

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Três pedidos.

 Pequenos olhos escuros observavam o céu escuro numa noite de sexta-feira. Uma brisa calma tocava os cabelos também escuros daquela pequena garota que sentava no degrau de sua casa, abraçando suas pernas e olhando fixamente para uma esfera gigante, branca e que iluminava um pouco as pequenas árvores que alí estavam a descansar. Ela se encolhia devido ao frio e fácilmente se encantava com o doce cheiro da cerejeira que ficava justo ao lado de sua pequena casa e com um sorriso sincero, fitava a enorme esfera com uma certa esperança.
 Tinha lá por volta dos seus sete anos. Seu pai era ausente e sua mãe havia falecido quando ainda era muito pequena. Morava com seu avô em uma pequena casa de madeira, sobre uma montanha qualquer no interior de uma cidade do Japão. Desconhecia qualquer outro sentimento que não fosse a saudade e possuía, em seus pequenos olhos de gueixa, uma tristeza quase incalculavel, que se tornara imperceptivel com o passar do tempo, já que a pequena garota sabia melhor do que ninguém esconder suas lágrimas.
 - A princesa Kaguya... Como eu queria... Como eu sei que a mamãe está com você... Eu queria tanto estar com vocês... Fico me perguntando se vocês são amigas e como são os coelhos que vivem na lua, mamãe. Queria que você pudesse ouvir a cidade em cantoria e que pudesse dizer ao vovô que por mais que ele seja desajeitado, é um excelente avô e que está cuidando direitinho de mim. - A pequena garota disse em sussurros quando observava agora algumas estrelas cadentes que enfeitavam aquele cenário escuro de um céu que parecia ser tão infinito quanto tudo o que ela já havia visto antes e ela se sentia tão só, tão insignificante diante de tanta imensidão.
 - Sabe mamãe... Aprendi hoje na escola várias coisas legais. Hoje eu já aprendi até mesmo algumas formas alternativas de escrever o meu nome! E nunca pensei que outro kanji, além do meu, poderia ser tão dificil! Mas eu gosto, gosto muito e também tenho treinado muito para isso... Acho que até te contei! Estou treinando arco e flecha agora. Vovô disse que eu tenho muito talento e que um dia eu ainda poderia me tornar uma excelente arqueira! Você acha que eu me saíria bem? - A pequena Natsumi tinha suas inseguranças como qualquer outra garota, embora fosse um pouco mais madura pois o cotidiano a obrigou a crescer e sem muito o que reclamar, ela se calou e assumiu as responsabilidades da vida que acabaram se tornando comuns e presentes, principalmente a ausência de seu pai.
 - Tenho certeza que você fora a única pessoa que realmente me amou... Papai me abandonou e quase nunca me traz presentes e depois me leva para tirar várias fotos com ele. Sei que ele tem os seus problemas, mas ele parece nem se importar pois não se dá o trabalho nem de me ligar para perguntar como estão indo as coisas... Eu sinto, mamãe, que estarei eternamente sozinha, mas não deixo de me importar embora eu esteja sendo muito forte... Eu não tenho amigos e só tenho o vovô, mas eu sei que ele não vai ficar aqui pra sempre... - Um pequeno suspiro e algumas lágrimas já eram fortes o suficiente para tocar a terra e deixar alí um pequeno vestígio de algo que poderia ter sido feito, mas nunca fora... Não havia muito o que ela pudesse fazer a não ser...
 - Três pedidos, mamãe. Um deles é que eu quero ser muito forte, o segundo é que eu quero encontrar alguém muito especial e o terceiro é que um dia eu possa estar com você novamente. - E um sorriso tomou conta de sua expressão triste quando uma outra estrela cadente, dessa vez avermelhada, cortou o céu como se fosse uma resposta de sua mãe.
 A pequena garota, já com seus quinze anos de idade abriu os olhos e com um pequeno sorriso, a mesma noite, a mesma sexta-feira e um olhar pela janela trouxe lembranças de uma sexta-feira há anos e anos atrás, aonde ela se sentava no degrau de madeira e fazia sempre os mesmos três pedidos e que até hoje, continua a esperar pela sua nova estrela cadente.

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Anéis de Saturno

 Depois de uma noite chuvosa e talvez três cigarros de maconha, alguns pontos brilhantes no céu já podiam ser observados enquanto pequenas gotículas insistiam em invadir a minha pele seca, cobrindo o meu cansaço e a vontade de me levantar daquele chão molhado que deixava o meu corpo cada vez mais frio e me trazia uma sensação de desconforto, mas eu não me importava.
 Eu tinha um ar de sabe-se lá o que você procura na vida, eu tinha uma mão no rosto e outra no destino. Tava remando pra maré alta e nem sabia como voltar depois. Eu tinha um olhar de abandono toda vez que observava pequenos movimentos entre os pontinhos brilhantes no céu e me perguntava se um dia faria parte deles. Se um dia reconstruiria o meu barquinho pra navegar até Vênus e me encontrar sobre uma areia cor de rosa que mancharia a minha pele pálida e talvez enterrasse os meus súbitos sussurros que eram quase abafados por uma sensação desconhecida. Um seco na garganta e um coração gritando no peito para uma reação, qualquer que fosse, um dedo ou um fio de cabelo, mas não o obedeci e permaneci da mesma forma por quase duas horas.
 Sei que cantarolava alguma coisa que me lembrava Sinatra, mas não... Não pode ser Sinatra, Sinatra é clichê demais agora... Talvez seja Armstrong com Fitzgerald trazendo uma graça e um ar de paz aquele ambiente que nem tenso estava. Com luzes apagadas e vestígios de fumaça, talvez vestígios de memórias em fotografias pelas paredes brancas que eu poderia cobrir de preto depois de mais um cigarro.
 A noite parecia não se transformar em dia e uma lua que parecia estar no céu, não está mais. Eu estou navegando por ela no instante e não vejo a terra em lugar algum. Vejo Marte se aproximando e já posso sentir todo o seu calor tomar os meus poros. Vejo Urano, vejo Saturno e seu anel de fumaça aonde eu já pensei em escorregar. Vejo Júpiter e sua grandiosidade. Vejo meu destino, vejo minha morte, minha esperança e meu desespero.
 Vejo um suspiro e uma péssima noite de sono, vejo-me sem nada amanhã.

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Meia noite de um meio sábado pra um meio domingo

 Quinta dose. Definitivamente essa era a minha quinta dose daquele uísque com gosto de água sanitária. Confesso que odiava uísque e gostava de mistura-lo com algumas coisas, mas talvez a ocasião não permitisse, pois eu estava tão entediada que gostaria de ficar embriagada, não pra passar mal no dia seguinte mas sim para ver se eu conseguia relaxar um pouco mais. A tensão do trabalho estava me matando e todos os documentos mais importante estavam em minha mãos, eu estava trabalhando cada vez mais e raramente tinha um tempo pra alguma coisa, estava cansada e irritada. Pedi mais uma dose e a bebi do mesmo jeito. Rasgando e queimando a minha garganta abaixo e me causando a sensação de dinamites explodindo em meu estômago enquanto eu resmungava algo baixinho devido ao péssimo gosto que essa bebida possuía.
 - Noite ruim? - Ouvi uma voz extremamente suave tocando o meu ouvido esquerdo. Era uma voz calma e que parecia, por algum motivo, estar falando comigo. Virei a cabeça para observar uma garota com um sorriso casual e uma expressão extremamente calma. Seus olhos castanhos me analisavam de uma forma sútil enquanto ela apoiava seu braço direito sobre o balcão. Arqueei uma sobrancelha.
 - Tá falando comigo?
 - Sim, acho que não tem ninguém além de você aqui. - Olhei para ambos os lados e vi que ela estava realmente certa. Continuei com uma expressão confusa e um pouco vidrada naqueles olhos que pareciam querer me dizer algo, porém não diziam nada. Nem seus lábios.
 - Então está tendo mesmo uma noite ruim. Tem pelo menos uns cinco copos aqui. - Observei os copos vazios e o cheiro de uísque que meu corpo exalava sem querer. Meus lábios se separaram por alguns instantes para dizer algo mas não pude ser capaz de responde-la. - Tá certo, vamos deixar isso pra lá. - Voltei a olhar para ela novamente.
 - Escuta... Porque cê ta falando comigo?
 - Porque eu quero? Eu tenho que te dar motivos?
 - Não sei? Eu nunca te vi antes! Por que diabos você falaria comigo?
 - Não sei, eu só quis vir falar, oras. Você precisa ser tão grossa? - Ela soltou uma risada baixa, porém divertida e mudou o seu sorriso para um sorriso extremamente jovial e encantador. Não entendi muito bem, mas essa garota... Era... Estranha. E me assustava um pouco.
 - Não estou sendo grossa, eu só não to entendendo!
 - Você bebeu cinco copos de uísque, está aqui sozinha e é atraente. Eu quis vir falar com você!
 - Tá, o que você quer de mim?
 - Realmente... Sua noite está sendo péssima, não acha? - E riu. Riu confortavelmente e sem se importar com a expressão de raiva que agora tomava conta do meu rosto.
 - Cê quer me provocar, é?
 - Não, eu quero que você se divirta.
 - Aham, tá. Você é uma estranha e quer que eu me divirta?
 - Exato.
 - Sinceramente, não to entendendo.
 - Você não precisa! - Senti uma mão agarrar a minha com certa ferocidade e com um certo cuidado, ela entrelaçou seus dedos nos meus e me puxou, fazendo com que eu abandonasse o banco e os copos vazios sobre o balcão. Não sei o que aconteceu, mas eu deixei com que ela me guiasse. Confiei minha mão e o resto do meu final de semana naquela garota que nem havia dito o seu nome. Garota que havia aparecido e puxado conversa, garota com cabelos negros encaracolados como os de Caetano Veloso.
 Saímos do bar e enquanto ela ainda me puxava, percebi que as ruas estavam molhadas, pelo visto eu estava muito embriagada pra descobrir que havia chovido. E muito. E que ela estava me levando para uma praça no meio do nada com apenas um poste no meio e várias arvores ao seu redor. Estranhei um pouco o cenário que me parecia um bocado sombrio, mas talvez estivesse pensando demais, por isso simplesmente deixei com que suas pernas me guiassem até um banco que estava embaixo de uma das árvores, o céu já estava limpo e alguns pequenos pontos brilhantes pareciam ajudar na iluminação que era quase inútil naquele lugar. Apesar de meio sombrio, até que era relaxante.
 Logo senti que suas pequenas mãos haviam deixado as minhas para trás e repousei meus olhos sobre o par de amendoas que me fitavam de forma divertida. Ela se sentou e esperou que eu fizesse o mesmo.
 - Vai me dizer seu nome? - Perguntei enquanto observava um pouco mais o ambiente, sentindo um certo calafrio.
 - Vamos fazer o seguinte, cê pode me chamar de uma noite só.
 - Uma noite só?
 - Exato.
 - Que tipo de nome é esse? - Soltei uma gargalhada em forma de deboche. Que tipo de pessoa diria isso? Essa garota me parecia um pouco diferente mas decidi optar pela digestão de tudo que estava acontecendo do que tentar pensar em algo estando embriagada.
 - Não é um nome, eu sou uma garota qualquer que você encontrou essa noite. A gente pode se divertir, mas não preciso te dizer quem sou. Você vai lembrar de mim.
 - Ah é?
 - Sim e não precisamos de "poréns" nisso aqui.
 - Você tá brincando comigo, não tá?
 - Não. Eu quero que você pare de pensar.
 - Mas eu quero saber quem é você.
 - Mas não vai saber. - Um sorriso de orelha a orelha se estampou em sua face enquanto ela se aproximava de mim e fixava seu par de amendoas sobre os meus e sussurrou. - Talvez você me ache, é só você quiser me achar.
 - Pra que esse mistério todo?
 - Não é mistério, eu só quero que você queira me achar. - E colou seus lábios nos meus como se tivéssemos todo tempo do mundo. Senti seus braços sobre meus ombros enquanto meus braços envolviam a sua cintura. Um beijo doce, suave, diferente e ela me tirava do sufoco todo que eu estava passando há pelo menos um dia atrás. Continuamos assim acho que talvez até a metade da noite, quando fomos pra minha casa e minha alma simplesmente adormeceu enquanto nossos corpos se encontravam um no outro. No dia seguinte, quando meus olhos resolveram se abrir, um pequeno pedaço de papel estava ao meu lado na cama e não havia sinal nenhum da garota da noite passada.

 "Minha querida,
 Como diria o Chico Buarque, talvez eu até pedisse por um corte de cetim, mas não sou esse tipo de mulher. Toda vez que quiseres me encontrar, saberás aonde me achar, não precisamos de mistério e muito menos de rodeios. Vê se numa próxima vez, me leva pra ouvir um bom samba por aí ou alguma das coisas que conversamos ontem, afinal de contas, isso poderia ter sido mais interessante se tivéssemos pensado em algo mais... Talvez você pense, mas quem sabe a gente não se vê por aí.
 Da sua talvez e nunca
 B."

 De duas coisas eu tinha certeza. Uma que eu a encontraria de novo e outra era que realmente eu tinha me deixado levar por uma garota que nem havia me dito o seu nome. Dei um pequeno sorriso e me levantei da cama como se não houvesse uma ressaca pra curar, mas de vez em quando, pela semana, eu ainda sonho com ela e com um sorriso que ela me marcou naquela noite de sábado, uísques e Chico Buarque.

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